Dois movimentos recentes ajudam a entender por que o farmacêutico clínico nunca foi tão necessário quanto agora. Em julho de 2026, o CFF divulgou os resultados de um estudo publicado na Nature Medicine mostrando que alguns antibióticos podem alterar o microbioma intestinal por até oito anos após o tratamento.¹
Na mesma semana, a Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara aprovava o PL 491/15, que torna obrigatória a venda fracionada de medicamentos como antibióticos, analgésicos e anti-inflamatórios.²
São dois temas diferentes, mas têm o mesmo ponto de partida: o uso inadequado de medicamentos tem consequências reais, duradouras e evitáveis. E o farmacêutico é o profissional mais preparado para intervir nesse processo. Quer entender como? Continue a leitura!
Qual é o impacto do uso inadequado de medicamentos na saúde pública?
O uso inadequado de medicamentos não é um problema pontual. É uma questão de saúde pública com impactos que vão de reações adversas evitáveis até a resistência antimicrobiana, um dos maiores desafios globais da medicina contemporânea.
O que os dados mostram sobre esse cenário?
Segundo estudo publicado na Nature Medicine e analisado pelo CFF, pesquisadores identificaram mudanças na composição do microbioma intestinal mesmo quatro a oito anos após o tratamento com determinados antimicrobianos, em dados coletados de quase 15 mil adultos na Suécia.³
Os antibióticos associados ao maior impacto incluem clindamicina, fluoroquinolonas, flucloxacilina, tetraciclinas, cefalosporinas e macrolídeos. E o dado mais preocupante: mesmo um único ciclo de tratamento foi associado a alterações prolongadas na flora intestinal.³
Isso não significa que antibióticos devem ser evitados quando necessários. Significa que a decisão de prescrevê-los e dispensá-los precisa ser criteriosa, informada e acompanhada.
Você sabia?
A OMS classifica a resistência antimicrobiana como uma das dez maiores ameaças à saúde pública global. O uso indiscriminado de antibióticos é um dos principais fatores que aceleram esse processo. O farmacêutico que orienta corretamente o paciente sobre adesão ao tratamento e uso racional desses medicamentos está contribuindo diretamente para um problema de escala mundial.⁴
O que a venda fracionada muda na prática para o farmacêutico e para o paciente?
A Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara dos Deputados aprovou o PL 491/15, que converte o fracionamento de medicamentos de uma prática permitida em uma exigência legal para categorias como antibióticos, analgésicos, anti-inflamatórios e antieméticos.⁵
O projeto ainda tramita na Comissão de Saúde, mas o movimento é claro: o fracionamento está deixando de ser exceção para se tornar regra.
Por que isso amplia o papel do farmacêutico?
Pela proposta, o fracionamento ficará sob a responsabilidade do farmacêutico, e o consumidor será obrigado a apresentar receita médica para ter direito à compra fracionada.
Na prática, isso significa mais um ponto de contato entre o farmacêutico e o paciente, e mais uma oportunidade de intervenção clínica. Quando bem aproveitado, esse momento permite:
- verificar se a prescrição está adequada à condição do paciente;
- orientar sobre posologia, tempo de tratamento e possíveis interações;
- identificar padrões de uso inadequado, como interrupção precoce de antibióticos;
- reduzir o desperdício de medicamentos e os custos para o paciente.
Fato em evidência
O fracionamento de medicamentos já existe no Brasil desde 1993, mas por ser voluntário, raramente era praticado. Com a proposta aprovada na comissão, antibióticos passam a integrar obrigatoriamente essa lista. Isso coloca o farmacêutico no centro de um processo que envolve tanto segurança clínica quanto adesão ao tratamento.
Qual é o papel do farmacêutico na prevenção de eventos adversos e na educação do paciente?
A prevenção de eventos adversos é uma das funções mais críticas do farmacêutico clínico, e também uma das menos visíveis para quem está fora do sistema de saúde. Boa parte do trabalho acontece antes que o problema apareça.
O que o farmacêutico pode fazer que nenhum outro profissional faz com a mesma profundidade?
O farmacêutico é o profissional com maior domínio sobre o perfil farmacológico dos medicamentos. Na prática clínica, isso se traduz em ações como:
- identificar interações medicamentosas entre fármacos prescritos por diferentes especialistas;
- reconhecer medicamentos potencialmente inapropriados para idosos, população especialmente vulnerável à polifarmácia;
- orientar sobre armazenamento correto, especialmente em medicamentos termolábeis ou fotossensíveis;
- notificar reações adversas ao sistema de farmacovigilância da ANVISA;
- acompanhar a adesão ao tratamento em pacientes com doenças crônicas.
Por que a atuação clínica do farmacêutico ganha cada vez mais relevância?
O cenário que estamos descrevendo, antibióticos com efeitos de longo prazo, venda fracionada se tornando obrigatória, polifarmácia crescente entre idosos e resistência antimicrobiana avançando, não é passageiro. É estrutural. E ele aponta para uma direção clara: o farmacêutico que atua apenas como dispensador está ocupando uma fração do espaço que a profissão pode e deve ocupar.
O que está mudando no reconhecimento legal e institucional dessa atuação?
As resoluções mais recentes do CFF reforçam esse movimento. A Resolução CFF nº 585/2013⁶ regulamentou as atribuições clínicas do farmacêutico. A Resolução CFF nº 586/2013⁷ instituiu a prescrição farmacêutica. A Resolução CFF nº 730/2022⁸ ampliou a atuação nos serviços de saúde. E a Resolução CFF nº 5/2025⁹ avançou no acompanhamento farmacoterapêutico sistemático do paciente.
Cada nova norma abre um espaço. Mas apenas o profissional com formação clínica sólida consegue ocupá-lo.
Os dados sobre uso racional de medicamentos apontam para o mesmo lugar: o farmacêutico com formação clínica está no centro de um dos maiores desafios da saúde pública contemporânea. Esse espaço está aberto. A questão é quem vai estar preparado para ocupá-lo!
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