Em julho de 2026, a ANVISA emitiu um alerta público sobre os riscos de seguir recomendações de medicamentos e suplementos divulgadas por influenciadores nas redes sociais.
O comunicado da agência foi direto: mesmo quando o influenciador age de boa-fé, ele não conhece as particularidades do quadro de saúde de cada pessoa. E foi além: golpistas estão usando inteligência artificial para criar vídeos e áudios que simulam médicos e celebridades recomendando produtos clandestinos ou falsificados.
Esse cenário coloca uma questão urgente para a profissão farmacêutica. Num ambiente onde qualquer pessoa pode publicar conteúdo sobre medicamentos e suplementos para milhões de seguidores, qual é o papel do farmacêutico? E o que ele precisa para exercer esse papel com autoridade? Continue a leitura!
O que o alerta da ANVISA revela sobre o cenário atual da saúde nas redes sociais?
A desinformação em saúde não é uma novidade, mas a escala que ela atingiu com as redes sociais é inédita. Se antes o que víamos eram “crendices populares”, hoje enfrentamos questões como:
- produtos sem registro na ANVISA sendo vendidos como solução para doenças crônicas;
- suplementos apresentados como medicamentos;
- deepfakes (uso de IA para a produção de imagens e vídeos) de médicos recomendando tratamentos que nunca indicaram, entre outros.
O ecossistema digital criou um ambiente onde a aparência de autoridade substitui a autoridade de verdade e isso é um grande problema.
Por que isso é um problema clínico, não apenas de comunicação?
Porque as consequências chegam ao consultório, à farmácia e ao hospital. E os exemplos são bem variados:
- um paciente que iniciou um suplemento por indicação de um influenciador e não mencionou isso ao médico;
- o idoso que trocou o medicamento prescrito por um produto “natural” recomendado por um perfil com milhões de seguidores;
- a pessoa que automedicou uma infecção bacteriana com o antibiótico que viu sendo recomendado em um vídeo.
Cada um desses cenários tem um risco clínico que pode afetar não só a pessoa isoladamente, mas até mesmo a comunidade como um todo.
Você sabia?
A ANVISA alerta que suplementos alimentares são destinados a pessoas saudáveis para a suplementação de nutrientes, substâncias bioativas, probióticos ou enzimas. Não é admitido veicular alegações de cura, tratamento ou prevenção de doenças nesses produtos. Quando um suplemento é apresentado como tratamento, o consumidor está sendo enganado, e pode estar colocando sua saúde em risco.
Quais são os riscos da automedicação incentivada pelas redes sociais?
A automedicação não começa nas redes sociais e, na verdade, ela já era um problema antes dos influenciadores. Mas as redes sociais amplificaram o fenômeno de uma forma que o sistema de saúde ainda está aprendendo a lidar.
O que muda quando a recomendação vem de uma tela?
A recomendação de um influenciador carrega um elemento que a bula não tem, a identificação. O paciente vê alguém parecido com ele, com os mesmos sintomas, dizendo que determinado produto funcionou. Isso cria uma sensação de relevância pessoal que é muito mais persuasiva do que uma informação técnica genérica. O problema é que:
- o produto recomendado pode não ter registro na ANVISA;
- mesmo tendo registro, pode ser contraindicado para aquele paciente específico;
- a interação com outros medicamentos que o paciente já usa não foi considerada;
- a dose e o tempo de uso podem estar errados para aquela condição;
- o “diagnóstico” que motivou o uso pode estar incorreto desde o início.
Fato em evidência
Segundo a OMS, o uso inadequado de medicamentos é uma das principais causas de danos evitáveis à saúde em todo o mundo. Eventos adversos relacionados a medicamentos respondem por uma parcela significativa das internações hospitalares, e boa parte deles poderia ter sido evitada com orientação profissional adequada.
Por que o farmacêutico é a fonte mais acessível de orientação confiável?
Em 2024, os programas de assistência farmacêutica beneficiaram mais de 8,3 milhões de pacientes em cerca de 4,9 mil estabelecimentos, distribuídos por 1.400 municípios de todos os estados brasileiros e do Distrito Federal.
Isso coloca o farmacêutico numa posição única e ele é, muitas vezes, o primeiro (e às vezes o único) profissional de saúde que o paciente consulta antes de iniciar um medicamento.
O que esse posicionamento exige do profissional?
Exige muito mais do que conhecimento sobre os produtos disponíveis. Exige capacidade de:
- identificar situações de risco antes que o paciente as perceba;
- comunicar informações técnicas de forma clara e acessível;
- reconhecer quando uma dúvida do paciente esconde um uso inadequado de medicamento;
- orientar sobre a diferença entre medicamento, suplemento e fitoterápico;
- saber quando encaminhar para outro profissional de saúde.
Insight de carreira
O farmacêutico que desenvolve habilidades de comunicação em saúde e que se posiciona como referência confiável para os seus pacientes constrói algo que nenhum algoritmo entrega: vínculo de confiança. E esse vínculo tem valor clínico, porque o paciente que confia no farmacêutico pergunta antes de agir.O que significa praticar a Farmácia baseada em evidências?
Prática baseada em evidências não é sinônimo de conservadorismo ou de desconfiança em relação a novas terapias. É um método de tomada de decisão que combina três elementos: a melhor evidência científica disponível, a experiência clínica do profissional e os valores e preferências do paciente.
Como isso se aplica no dia a dia do farmacêutico?
Na prática, significa que cada orientação dada ao paciente deve seguir a lógica de:
- verificar se o medicamento ou suplemento tem registro e aprovação de uso para aquela indicação;
- consultar fontes primárias e confiáveis antes de recomendar ou validar um produto;
- diferenciar o que é tendência nas redes do que a literatura científica sustenta;
- questionar prescrições quando há inconsistências, com argumentos técnicos;
- se manter atualizado sobre as evidências mais recentes nas áreas em que atua.
Fato em evidência
A Resolução CFF nº 586/2013 instituiu a prescrição farmacêutica no Brasil. Ela define que o farmacêutico pode prescrever medicamentos isentos de prescrição médica, plantas medicinais e fitoterápicos, entre outros produtos, desde que sua atuação seja pautada em evidências científicas e no melhor interesse do paciente.
Como a educação continuada fortalece a atuação ética e segura do farmacêutico?
O farmacêutico que não se atualiza perde terreno para quem não tem formação técnica, mas sabe usar as redes sociais. E num cenário onde a desinformação se espalha com velocidade bem considerável, a resposta precisa ser estrutural.
O que a formação continuada entrega que o consumo de conteúdo não entrega?
A formação continuada organiza o conhecimento, aprofunda o pensamento crítico e cria um repertório que permite ao profissional avaliar cada nova informação com mais segurança.
No IPESK, esse processo é conduzido por profissionais com atuação clínica ativa, o que significa que o conteúdo trabalhado em sala já considera o que o mercado está discutindo agora, incluindo os desafios que a desinformação impõe à prática farmacêutica.
Num ambiente onde qualquer pessoa pode recomendar medicamentos para milhões de seguidores, o farmacêutico é uma das poucas vozes com formação técnica para quebrar esse ciclo. Mas exercer esse papel com consistência exige atualização permanente, pensamento crítico e compromisso com o paciente acima de qualquer tendência.
Quer aprofundar seus conhecimentos e desenvolver uma atuação clínica baseada em evidências? Conheça as especializações do IPESK e acompanhe nossos conteúdos.
